Núcleo de Estudos em Ontologia, Produção, Operações Nômades,
Estéticas de Resistência e Artes
Manifesto
NEOPONERA é, antes de tudo, o nome de um gênero neotropical de formigas reconhecido por sua grande diversidade morfológica e comportamental dentro das ponerinas. A literatura recente o descreve como um dos gêneros mais diversos desse grupo, hoje com cerca de 58 espécies válidas, incluindo formas terrícolas e arborícolas, estratégias de caça distintas e variações importantes de organização social. As ponerinas, de modo mais amplo, são frequentemente caracterizadas como formigas predadoras, e vários estudos destacam nelas uma distância morfológica relativamente menor entre rainhas e operárias do que aquela que aparece no imaginário mais difundido das formigas de trilha, massivas, homogêneas e rigidamente hierarquizadas.
Não escolhemos esse nome para repetir a velha alegoria da formiga como emblema de disciplina cega, produtividade sem pausa ou sacrifício anônimo pelo todo. O que nos interessa em Neoponera é justamente outra imaginação do coletivo: uma vida social em que há organização, mas também plasticidade; em que há função, mas não redução absoluta da singularidade; em que a divisão reprodutiva existe, mas não elimina completamente a potência das operárias. Em Neoponera apicalis, por exemplo, a literatura mostra colônias pequenas, organizadas em torno de uma única rainha, nas quais as operárias podem estabelecer hierarquias reprodutivas quando a colônia se torna irremediavelmente órfã; nessas situações, uma dominante tende a concentrar a maior parte da postura, enquanto outras participam de forma ocasional ou permanecem sem postura.
Isso importa para nós porque desloca o imaginário da obediência. Em vez de uma sociedade fundada apenas na renúncia de si, encontramos uma figura do comum baseada em relações ativas, tensões, redistribuições de função e capacidade de reorganização. A literatura sobre plasticidade reprodutiva em formigas destaca justamente as ponerinas como um grupo em que a baixa dimorfia entre castas e a maior flexibilidade das operárias tornam mais visíveis os mecanismos sociais que regulam o poder reprodutivo, a dominância e a partilha de tarefas. O coletivo, aqui, não aparece como massa indiferenciada, mas como composição instável, situada e relacional.
Também nos inspira o fato de que essas formigas não são, em primeiro lugar, coletoras passivas de recursos previamente dados. Elas são atentas ao terreno, caçadoras, exploradoras do espaço, leitoras do ambiente, produtoras de percurso. A história evolutiva das formigas predadoras está fortemente ligada à forrageação solitária, e a própria literatura sobre Neoponera sublinha a diversidade de suas estratégias, que vão da caça individual a formas mais especializadas de predação. Para nós, isso oferece uma imagem potente da pesquisa: não como repetição automática de trilhas consagradas, mas como gesto de busca, precisão, risco, sensibilidade ao meio e invenção de passagem.
Há ainda outra razão decisiva para o nosso nome: o ninho. Em estudos sobre Neoponera verenae, o hormigueiro aparece não como mero buraco no solo, mas como arquitetura complexa, com entrada única, profundidade considerável, câmaras de formas distintas e uma vida interna atravessada por visitantes, inquilinos e presas. O ninho surge, assim, como território construído e poroso, espaço de abrigo, conflito, acoplamento e coexistência. Essa imagem nos importa profundamente. Pensamos o grupo de pesquisa como um hormigueiro nesse sentido: não um interior puro e fechado, mas uma ecologia de encontros, atravessamentos e composições, um espaço de elaboração coletiva que não elimina o fora, mas negocia continuamente com ele.
Também nos interessa, nesse horizonte, a dimensão relacional que certas pesquisas tornaram visível em espécies hoje incluídas em Neoponera, como N. villosa, historicamente estudada sob a designação Pachycondyla villosa. Em estudos clássicos sobre rainhas cofundadoras, foram descritos reconhecimento individual por pistas químicas e memória da identidade de outras rainhas após separação, algo funcional para a manutenção de hierarquias e para a redução do custo do conflito em sociedades pequenas. Essa imagem nos oferece mais um deslocamento decisivo: o comum não como apagamento das diferenças, mas como memória, negociação, convivência tensa e inteligência relacional.
Por isso, NEOPONERA nomeia, para nós, uma política da pesquisa. Não uma política da submissão, nem da produtividade vazia, nem da reprodução mecânica do já sabido. Nomeia uma prática coletiva fundada na composição entre diferença e vínculo, entre território e deslocamento, entre atenção minuciosa e abertura ao imprevisto. Nomeia um modo de pensar em que ontologia, produção, operações nômades, estéticas de resistência e artes não são campos separados, mas dimensões de uma mesma aposta: produzir conhecimento como quem constrói abrigo, explora o terreno, enfrenta capturas e inventa condições para que outros mundos possam existir.